Você sou eu e
eu sou tudo isso que não sei dizer. E você sabe bem o que eu quero dizer, pois
foi tu quem mais viste o nada que digo quando tento falar. Você é testemunha
das inúmeras e fatídicas tentativas de pôr em palavras. Você sabe. Você sou eu
e esse medo todo que você tem, de se perder em mim e não se ver nos outros, é o
mesmo medo que eu tenho. É algo que sempre senti e piorou depois de ti. É
verdade que eu continuo falando de ti como algo ruim que me aconteceu, mas a verdade
mesmo é que, para bem ou mal, você me aconteceu. E não foi você, nem o mundo,
mas eu mesmo que percebi tudo isso sobre mim e acima de tudo, que preciso me
conhecer melhor. Você me aconteceu e me viu assim, um pouco simples quando
visto de longe. Mas você se aproximou e percebeu, talvez antes de mim, a
confusão que eu sou e, apesar de muito trabalho, ainda não consegui entender
essa bagunça. Ainda há peças fora do lugar, há coisas faltando, outras que nem
sei pra que servem. Estou assim, como me viste um dia e me vês ainda hoje. Já
conversamos muito. Na verdade, tu falavas e eu só ouvia, como de costume.
Enquanto você discorria sobre seja lá o que tenha sido, eu estava ali mas em
outro lugar. Eu te ouvia, mas o que eu realmente ouvia era a minha voz e não
entendia bem o que eu dizia: eram muitas perguntas, poucas respostas, alguns
sussurros, assobios, músicas, cenas... O que acontecia realmente enquanto tu
falavas e eu fingia que ouvia era eu tentando entender. A mim, a ti, a nós, ao
mundo. Não te aborreças. É, eu sei: no fundo você sempre soube que eu estava
mais pra lá do que pra cá, pra tuas histórias. Não que elas não fossem
interessantes, nem que você não fosse importante para eu parar minha cabeça um
minuto e apenas te ouvir. Mas era mais forte do que eu. É mais forte do que nós
mesmos, você sabe. E no fim, de que adiantou? Pois continuo sem respostas, com
novas perguntas e agora, sem você. Você acha que eu tentei mudar por você ou
que fiz você mudar por mim. Você acha que eu queria demais, eu sei. Mas preciso
te dizer que não. Eu não tentei mudar por você nem nunca quis que você mudasse.
Na verdade, não houve mudança nenhuma, eu nunca quis. Eu nunca quis demais, só
quis o que é nosso. Se eu mudei, foi de algo que não era eu para algo que ainda
não sou eu mas quer que eu viva. Você sabe, pois você sou eu e eu sou você e
todas essas perguntas sem repostas. Você sou eu e nós somos o que sempre fomos,
mas nem sempre deixamos ser. Eu aqui, você lá, mas de qualquer forma, sendo. Eu
me ouvindo, tentando ouvir as repostas.
(09/03/2015)
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