segunda-feira, 9 de março de 2015

Nós somos o que não sabemos

Você sou eu e eu sou tudo isso que não sei dizer. E você sabe bem o que eu quero dizer, pois foi tu quem mais viste o nada que digo quando tento falar. Você é testemunha das inúmeras e fatídicas tentativas de pôr em palavras. Você sabe. Você sou eu e esse medo todo que você tem, de se perder em mim e não se ver nos outros, é o mesmo medo que eu tenho. É algo que sempre senti e piorou depois de ti. É verdade que eu continuo falando de ti como algo ruim que me aconteceu, mas a verdade mesmo é que, para bem ou mal, você me aconteceu. E não foi você, nem o mundo, mas eu mesmo que percebi tudo isso sobre mim e acima de tudo, que preciso me conhecer melhor. Você me aconteceu e me viu assim, um pouco simples quando visto de longe. Mas você se aproximou e percebeu, talvez antes de mim, a confusão que eu sou e, apesar de muito trabalho, ainda não consegui entender essa bagunça. Ainda há peças fora do lugar, há coisas faltando, outras que nem sei pra que servem. Estou assim, como me viste um dia e me vês ainda hoje. Já conversamos muito. Na verdade, tu falavas e eu só ouvia, como de costume. Enquanto você discorria sobre seja lá o que tenha sido, eu estava ali mas em outro lugar. Eu te ouvia, mas o que eu realmente ouvia era a minha voz e não entendia bem o que eu dizia: eram muitas perguntas, poucas respostas, alguns sussurros, assobios, músicas, cenas... O que acontecia realmente enquanto tu falavas e eu fingia que ouvia era eu tentando entender. A mim, a ti, a nós, ao mundo. Não te aborreças. É, eu sei: no fundo você sempre soube que eu estava mais pra lá do que pra cá, pra tuas histórias. Não que elas não fossem interessantes, nem que você não fosse importante para eu parar minha cabeça um minuto e apenas te ouvir. Mas era mais forte do que eu. É mais forte do que nós mesmos, você sabe. E no fim, de que adiantou? Pois continuo sem respostas, com novas perguntas e agora, sem você. Você acha que eu tentei mudar por você ou que fiz você mudar por mim. Você acha que eu queria demais, eu sei. Mas preciso te dizer que não. Eu não tentei mudar por você nem nunca quis que você mudasse. Na verdade, não houve mudança nenhuma, eu nunca quis. Eu nunca quis demais, só quis o que é nosso. Se eu mudei, foi de algo que não era eu para algo que ainda não sou eu mas quer que eu viva. Você sabe, pois você sou eu e eu sou você e todas essas perguntas sem repostas. Você sou eu e nós somos o que sempre fomos, mas nem sempre deixamos ser. Eu aqui, você lá, mas de qualquer forma, sendo. Eu me ouvindo, tentando ouvir as repostas.

(09/03/2015)

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