No dia nacional da poesia, me deparo com um dos mais belos poemas que já li, recitado por uma das maiores atrizes de todos os tempos. Que mais belo presente poderíamos receber?
"Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar."Antonio Cícero - Guardar
Ainda assim, me aventurei em tentar rabiscar algo para esse dia. Nada pretensioso, apenas um agrado poético:
Acima de tudo, viva
A poesia está
em tudo que vemos. E, sobretudo, no que não conseguimos ver. A poesia vive em
cada um e em cada coisa e é preciso senti-la para, então, entender. É
onipresente. Está no sorriso da menina que acaba de ganhar um presente, no
beijo daquele casal apaixonado, na euforia daquele que venceu a partida de
futebol, nas lágrimas da mãe ao ver seu rebento pela primeira vez e no choro
sem lágrima desse pequeno que sente o primeiro sopro. Está na brisa que sopra
calmamente os cabelos de quem passeia no jardim, no som das ondas do mar
chegando aos ouvidos de quem contempla o pôr-do-sol. Está nos primeiros raios
da manhã e no orvalho da noite. A poesia está em cada canto. Na dor de quem se
despede, nas lágrimas de quem perde alguém, nos insultos que varrem a angústia
de duas vidas. Está no último suspiro de quem já viveu muita poesia. Está nas
primeiras palavras de quem ainda muito vai viver. Está nos tropeços dos passos
cansados e na graça dos primeiros tropeços. Está na boa notícia, no pedido de
casamento, nas mudanças de vida, nos ensinamentos. Está no pó de giz que habita
a sala de aula e está no que se aprendeu fora dela. Está em cada tijolo colado
com cimento e suor. Está na plantação e na colheita. Está no acre da seca e na
gratidão por cada gotinha de chuva. Está na poça de lama que se forma de manhã,
nos pés sujos dessa mesma lama e na água que os lava. Está nas folhas que caem
de tempos em tempos, nos frutos que se preparam pra surgir e alimentar os
famintos. Está nas flores, em cada pétala e em cada grão de pólen. Está nas
pedras que desafiam o rio e na água que faz seu destino. Está nos caminhos que
muitos já percorreram e nas veredas que uns inventam. Está na tinta que molha a
pena e nos segredos que ali se libertam. A poesia está em tantos lugares
inimagináveis e que nem conhecemos ainda. Está na própria vida e é preciso vivê-la.
É tudo e ao mesmo tempo o nada. A poesia... está principalmente no silêncio das
palavras.
(14 de Março de 2015, Dia
Nacional da Poesia)
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