Estou morrendo. Fosse como outros, estaria aqui me esvaindo em lágrimas e soluços. Mas, como dizem, eu não tenho coração. Eu até tenho isso que chamam de coração. Mas usá-lo deixa as pessoas fracas. Não eu, mas os outros. Usaria se quisesse, e derrubaria muita gente. Mas eu prefiro ser sincero, ou hipócrita, e deixá-los me odiarem. Ontem, vi pessoas correndo de um lado para o outro em festejo de carnaval, essa festa que inventaram e eu ainda não sei por qual motivo. Muita gente rindo sem nem saber por que, nem de que. Riam dos pobres mendigos e bêbados que passavam alheios àquela alegria. Brigas eram freqüentes e, mais ainda, ataques aos pobres desabrigados que passavam. Após o fim da festa, eu continuava imóvel, e via as pessoas deixarem as ruas, cheias de lixo e de gente morta. Gente? Não. Para eles, animais, estorvos. Muitos conhecidos eu vi perderem seu sangue para o chão cinzento. Para livrar as ruas daquela imundície, jogaram os irmãos de ninguém no lixão mais próximo. Simples projetos de pessoa. Era uma cena aterrorizante. Mas eu não tenho coração e, portanto, não me aterrorizei. Por quê? Era só o que vinha à minha cabeça. Não me assustei, pois já esperava o pior dos humanos. O pessimismo sempre fez parte de mim e sempre me fez bem. Apesar de já prever, não conseguia entender o porquê. Era algo como limpeza do mundo? Mas, por que a sujeira varria a vassoura? Chorar não fazia parte de mim. Mas, por dentro, eu sentia o gosto salgado da angústia. Por fora, indiferença. Não é o tipo de barreira sentimental que costumam usar. É mais um tipo de vingança. Chorar é marketing. E eu não estou atrás de negócio. Meu coração é de material biodegradável e não dá lucros. Meu sangue não é petróleo e não vale nada. Meu corpo não é carvão mineral e eu não elimino gás natural. Meu metabolismo é daquilo que se faz para os outros. É ver gente viva na rua, sem carnaval, nem lixões de carne humana. É por isso que estou morrendo.
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