segunda-feira, 25 de agosto de 2014

No meio do caminho tinha um Rosa

Confissões do leitor: “Grande Sertão: Veredas” de João Guimarães Rosa

No meio do caminho tinha um Rosa.

“Mire veja”: são inúmeras as veredas que surgem nas 752 páginas desta obra. O sertão: tão familiar, tão estranho. O sertanejo: nós todos, cada um, reconhecível.
"O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível". E não é mesmo, Guima. Esse livro me espantou de cara: pela expectativa, pelas primeiras palavras, não tão entendível de cara. Mas assim como é a vida: vai clareando aos poucos e, quando vê: está tudo enfim descoberto. "Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia".
Foram anos de expectativa: à primeira vez que parei para ouvir sobre Guimarães, sua obra (em especial, essa), já há muito havia me aventurado no vasto mundo da literatura. Mas nunca em tão densa coisa. Ensino médio, aula de literatura. Eveline, professora da disciplina, no meio do contar de toda a vida e obra deste homem que brincamos de chamar Mestre Guima, diz: Guimarães é, pra muita gente: ame ou odeie. Parafraseando no que a memória permite. Susto já principiou daí. Contos: foram a forma com que ela nos apresentou a ele. Não falo pela maioria: mas efeito pra lá de bom isso me ocorreu. “A terceira margem do rio” já gravada na parede da nossa memória pra sempre desde aquelas aulas, nunca esquecemos. Quis logo mais. Porém, não perseverei, fui adiando... Klyvia, uma amiga dentro desse mesmo contexto, tempos depois me recomendou seu livro de contos “Primeiras estórias” e, depois de ler, aí quis muito mais! Com muita curiosidade fui caminhando. Depois de ler o grande “Grande Sertão: Veredas” a tal amiga só faltou morrer de amores e queria que eu também padecesse do mesmo “mal”. Curiosidade, vontade corroendo. Enfim, (tempo passando), adquiri. Não li logo. Havia uma fila. Em 2012 foi que primeiro li as primeiras páginas. Faculdade no auge, provas e mais. A leitura não fluía como esperado. Pronto eu não estava. Parei a contragosto.
Em 2014, agora, é que recomecei. E terminei. Leitura assim tão prazerosa há muito tempo não tinha. Confesso: trabalhoso, árduo, desafiador. Mas, acima de tudo, engrandecedor.
Na travessia por essas veredas sertanejas muita coisa aprendi, descobri. Conselho pra vida toda, verdade sobre o tudo: tem de sobra.
O livro se constrói em um cenário: o sertão, sertões, Brasil, o mundo. Com um personagem: o homem. Assim genérico. Regional, universal. A linguagem não é portuguesa, nem brasileira: é Rosiana. Poesia salta de palavra em palavra, até em quase-palavra. A alma da gente tá toda ali:
Todos nós merecemos é liberdade do pensar. A dúvida deve sempre é estar plantada. Aprender sempre. "O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!” Homem simples sertanejo muitas vezes sabe disso muito antes de homem letrado. "Sou um homem ignorante. Gosto de ser. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida? Eu quero ver essas águas, a lume de lua..."
E que a alma da gente, o nosso ser per si, é não estático, sempre se construindo: “Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior."
Vivemos como parte do todo. Cada um sendo muito do importante. Da unidade depende todo o total. Fazer sempre o que ao seu alcance estiver, o que sempre puder, assim é que deve ser: “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”. E nesse capinar, ter sempre o reto como exemplo de proceder, sem certeza mas crendo que é isso mesmo. "O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra". Decidir e ir. O que acontece no meio são outras estórias... Às vezes um mau proceder pode acontecer. Aprender com o erro é o que importa.
Ah, sobre o amor: Infinitudes... "Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe”. E mais: “O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.” E as ânsias desse sentimento: "Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo."
Ter sempre o companheiro de viagem, muito importante. Aquele que com apreço se faz presente, sem muito querer. "Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é”.
"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!” Das pedras no meio do caminho esse está cheio. Transpassá-las devemos e aí dar de cara com o mais belo campão de flor. "Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero." Vida é isso, toda uma caixa de surpresa: “pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.” Astúcia deve-se ter sempre pra perceber. “O que meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depoisd’amanhã”.
"Passarinho que se debruça: o voo já está pronto!" Liberdade, ah. "Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer."
Beleza em palavra pra uma vida toda dá pra encontrar por lá, nesse rio de letras. E do sertão? Sertão é em todo canto: o mundo e nós somos ele. “Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: – ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.” Disse ainda mais: "Sertão: é dentro da gente." Sertão, ou seja, o mundo surpreende até não poder mais. Faz parte da gente: “Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo".
Que viver é o eterno aprender, foi o que mais soube: "Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas". E quando achares que nada há mais pra saber, prepara-te pra mais. "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."
"O senhor pense, o senhor ache. O senhor ponha enredo."
"Eu conto; o senhor me ponha ponto”. Tagarelar o resto dos dias todos sobre tudo isso dá facílimo. Vou tentando suspender conversa tão comprida.
Guimarães me abriu universo de sonhar. Com o novo. Pois, se até uma língua foi toda reinventada pra uso de contar história, por que não tudo? Língua nova, mas que todo mundo fala. "Ah, vai vir um tempo, em que não se usa mais matar gente..." Ah, tempo bom vai ser.
Ponto final é em algum momento ponto de partida. A declaração: uma vida pré e uma vida pós esse livro.
"Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito".

(24/08/2014)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Navegar é preciso...

Amigos, resolvi ressuscitar o blog com texto novo e, principalmente, com novo design. O que era o antigo "Advérbio de Modo", hoje se torna o "Desconversos". Novo nome, novo layout, mas o mesmo blog, mesma intenção, mesmo autor, mesmo mundo, vasto mundo.
Mais palavras a vir.  
Sem mais, adeus. Ou melhor, até logo.

A estrada é compartilhada. Mas a viagem, individual.

“O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.”
Guimarães Rosa

De querer tudo entender o homem vive e acaba não vivendo. É de propriedade do ser essa tal curiosidade. Nem sempre possível, embora. O viver de cada um é livre de explicações, é “viver” a máxima que rege o continuar da vida... Creio.
Há quem diga. Que um reto proceder é um assim, ou assado. Pergunto: o que é? É assim como querem ou como deve ser: deve-se saber. Digo logo que nem sei dizer sempre coisas certas e assim agir, vou como vou. Nem sempre de impulso, na verdade, quase nunca. Quase sempre bem pensado, calculado, meticuloso, com receio, mas sem certeza do certo ou bom.
Ter medo? Sempre! Os trilhos são muito tortuosos e de muita tralha no meio do caminho pra querer parecer tão faceiro. Vai com medo, mas vai. Que o caminho é teu e de ninguém mais, por mais que o contrário seja dito. Só ou com quem quiser.
Aos fiscais, nada.
Deve-se (se assim achar): despedir-se de quem quiser; levar o que necessário for - o que não houver utilidade também; dar cada passo no firme piso... Se deixar levar e tomar o tomar o rumo na mão.
Pode ser que haja, através, o desvio obrigatório e tu não entendas. Pode ser que não entenda nunca. Deveras necessário deveria de ser.
De aliteração em aliteração, uma conversa vai ficando comprida demais. Não perde tempo. Toma teu tempo. E tento.
Nós todos companheiros de estrada. Sigo, sem pôr pedra no rumo do outro. 

(12/08/14)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Quando (não) somos mutantes

Ouvi dizer, certa vez, que as pessoas não mudam. No entanto, posso dizer, sem muita certeza: acordo sempre com a sensação de que não sou o mesmo. Me parece que deixo a vida escapar sempre que durmo, aí vem outra vida, outra pessoa, e toma o lugar vazio. Sou sempre outro. Às vezes, nem preciso dormir: sou num minuto e, no outro, já não sou. Sou outro. Será isso uma espécie de maldição? O que precisa ser feito para merecer tamanho fardo? Demanda muito sofrer metamorfose. Gostar de alguém e de repente desgostar completamente é extremamente danoso à sanidade: dito por experiência. Ser morada de mais de um é perturbador: não há paz.
Necessário é, contudo. Ser uma vida toda a vida é demasiado perigoso: não há estradas alternativas. É preciso ser labirinto. Perder os outros é uma espécie de caminho a si. Os vários seres que te habitam, são os que constroem a ponte: de si pra si.
Mas não há sinais nessas veredas: o caminho para a chegada é o mesmo para lugar nenhum. Depende de como o percorre.
Na verdade, entendo quem diz que as pessoas não mudam. Assim como concordo quando dizem que não se pode viver uma vida inteira e ser a mesma pessoa. Somos sempre outros, nos permanecendo os mesmos. Naturalíssimo. Como uma espécie de evolução: mudar é achar-se. E perder-se no meio é tão natural quanto.

(01/04/2014)

domingo, 15 de setembro de 2013

Essa Romaria chamada "Vida".





Somos todos caipiras (Pirapora nossa e de todos que presenciam o milagre da coexistência entre os seres) ao honrarmos o chão onde pisamos, primeiramente e pra-sempre-mente.

O torrão que nos dá. Assim verbo intransitivo mesmo, pois é infinita tanta generosidade.

Cuidemos dele.
Cuidemos de nós. 
Cuidem de nós, Nossas Senhoras todas, que o trem das nossas vidas vai vagando por aí e só aqu'Ele sabe pr'aonde vamos.




(Salve, Elis! Salve, Filipe Catto! Salve, as belas vozes desse nosso Brasil). 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ready for love



I am ready for love,
why are you hiding from me?
I'd quickly give my freedom
to be held in your captivity...
(India.Arie)


Sim, amor só dura em liberdade. Sentenciava o Maluco Beleza. Esse espírito livre e impuro. Amor quer ter passo comprido, voo distante. Quer sair por aí, olhar pra trás e: te ver. Amor quer amarras. Sim: liberdade é preciso e o ciúme também. Senão há rotina, e cansa.
E há quem diga que não há no mundo, ou em outro, sentimento mais paradoxal. Se queres amor, toma esta luta eterna de que o mesmo se faz.
Tu me disseste que estavas pronta: que se permitia se desprender, desapegar completamente. Retruco: não estás. Pois há de sempre ter entrega, qualquer coisa de rendição, sacrifício. Nunca essa coisa doentia de ter. Não nos possuímos, nunca. O que se diz humano deve ser pra sempre do mundo, sem restrições.
Devemos ser pássaros: do mundo, dentro de uma gaiola. Gaiola de porta aberta.  As asas íntegras e o canto límpido.
Lembras da menina que vivia a chamar: “vem cá, Sabiá, vem cá”? Não sabia que a ave era do mundo. Talvez por isso fosse amor puro, inocente.
É preciso estar pronto a entender coisa tão complicada como é essa de que estamos falando. Raramente estamos. E enquanto isso, vamos brincando de ter, de perder, brigar e “amar”, não no seu sentido mais verdadeiro, mas no que conhecemos.
Prepara-te. A vida é um constante brincar de amar.
E somos sempre peça.
“Sabiá responde de lá: Não chore que eu vou voltar”.

(30/08/2013)


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Carta extraviada, pois nunca enviada

From nowhere, everywhere, 24 de julho de 2013.

Meu caro amigo, não tão caro pois inexistente,

Após um bom tempo sem nos comunicarmos, venho por meio desta tentar restabelecer qualquer vínculo entre nós já construído. Peço desculpas pela ausência, mas deves saber que era necessário. E pode até ter sido melhor, mais agradável, assim. Tua voz nunca soou tão mágica e sábia como nos últimos anos nem tão nociva como agora.
As palavras ferem, eu sei. Mas sempre bom ter um pouco de sangue se exteriorizando de nós, para lembrarmos que somos vivos, mas não para sempre. Ou nem sempre. Confesso já ter avistado muitos mortos andando por aí, fingindo vida que não os cabe mais, ou nunca coube.
Tenho medo: de também estar fingindo coisa qualquer que não sou. Ao mesmo tempo que temo, tenho certeza de o estar fazendo. E me culpo. Dia após noite e dia.
Medo tenho mais do que me cabe e do que isso pode fazer comigo. E com os outros. E vice-versa. Whatever. O avesso de tudo pode ser verdadeiro nas palavras que ponho aqui.
Você pode estranhar a forma como tento entrar em contato contigo, posto que sempre nos falamos sem palavras inteiras, escritas, mas apenas pensadas. E incompletas, pois até em pensamento se deve ter cuidado com as palavras que usa. Nunca estamos sós. É a primeira vez que me aventuro nesse meio, de palavra escrita dirigida a alvo preciso, mas já não ligo se o caminho é mais seguro ou fácil, contanto que verdadeiro e eficiente.
Tenho medo: da resposta que podes me enviar. Dos vocábulos sinceros, secos, intragáveis que podes me dirigir. Tenho medo também que não os fale. Pior. Que sejam agradáveis.
Do que eu preciso é de mim, de ti, de todos e de ninguém.
Condição humana mais verdadeira e necessária que o medo ainda há de se encontrar. Enquanto precisarmos sobreviver para viver, viveremos temendo.
Assim dito, posto, colocado, concluo: não posso. Guardo mais um pouco pra te enviar esta, que é a chave de mim. Me admito covarde, não me mereço. Mas por assim ser, me reconheço sobrevivente. Dia-a-quase-outro-dia.
Me despeço, com enorme pesar e com grande alívio. Ouvindo aquela do Belchias, tentando aceitar o convite daquele coração selvagem. “Andar caminho errado pela simples alegria de ser/ Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo...”
                
Até.
Daquele que não precisa assinar. Pois palavras tão vagas não poderiam vir de outrem.


P.S.: “Vida, pisa devagar meu coração. Cuidado, é frágil”.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Save Our Souls


Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...

Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena, qualquer coisa

(Arnaldo Antunes; Alice Ruiz)


Socorro, tudo grita. No entanto, todavia, contudo, nada ouço. De tanto me fazer surdo, enquanto tudo ouvia, fui na verdade o sendo e agora nem me escuto. Mesmo aquela música, ou qualquer grito, mesmo que meu, principalmente meu, se faz agora como ausente. Mas não me engano, sei que soa por aí. A grande (nem tanto) questão é que desaprendi a me ouvir. É que achava a minha voz demasiadamente irritante e preferia ouvir o nada. Tanto apelo, tanto socorro, e nada. Agora a voz do dono grita pelo dono da voz, mas o mesmo agora é não-mais-dono de si e nada que lhe pertencia lhe é familiar. Tudo grita e eu não posso revidar. Há tanto pra se dizer, discutir, refutar, corroborar, reiterar, emitir, omitir. Quanto, tudo, tanto e mais ainda.  Grita, grito. Pois há necessidade e há o direito, como me assegurava Clarice. Mas nada adianta agora. É tanta alma pra ser salva e mais uma agora. Apenas espero, um sopro, assobio qualquer. Me ouve, me faz ouvir. Socorro.

(04/02/13)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Qualquer coisa de triste


"Toda alegria é assim: já vem embrulhada numa tristezinha de papel fino".
-Millôr Fernandes


Esse não é um bilhete suicida, de despedida ou de instruções até eu voltar. É apenas um lembrete, pra mim mesmo. Para que eu lembre que é fundamental estar triste. E que não obstante os planos traçados, tudo corre de um jeito louco, e nunca sabemos onde estamos e às quantas estamos. Vivemos disso, de estarmos assim e, de repente, não mais. É bom provarmos do fel de nossa essência, do que fizemos, do que deixamos de fazer. É que alegria demais é muito deprimente. Não suportamos de muita, só de pouquinho. Demais é por demais perigoso. Tem que se tomar tento. Tem que se deixar ficar casmurro, jururu, blue. Que aquela hora da piada é muito mais gostosa se se fizer assim. Não te preocupas. Se choro, mesmo sem lágrima, é que tô esperando a hora do sorriso. Tudo tem hora. Te lembras disso. Desculpa tudo isso, é que na minha escola só aprendi a pensar (e olha que muito), e essa história de ênclise e pontuação é demais pra mim, ainda mais nessas horas que tá tudo vindo à cabeça e não é sempre que acontece. Se espia. Mas de fininho, que é pra não perceber. Chora e resmunga um pouquinho, que é pra sorrir na hora certa. Tenho que ir agora, começa a chover e esse papel é fino que só pele de rã e tu, que sou eu, não pode deixar de ler. Não esquece. Me vou. 

(03/02/13)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A gente se vê


Quando você me ouvir chorar
Tente não cante não conte comigo
Falo não calo não falo deixo sangrar
Algumas lágrimas bastam pra consolar...
Tudo certo, como  2 e 2 são cinco.
-Caetano Veloso


Se você acha que me vê, não posso apenas contrariar. Mas digo, desconfio, penso que teus olhos te enganam. Essa coisa de ver e enxergar não dá no mesmo.  É que as pessoas se mostram de menos, mesmo quando se mostram demais. Quero apenas que estejamos bem, mesmo que eu não. E quando me refiro a nós, me refiro ao mundo inteiro. Sim, estou ciente do meu sempre discurso não-me-importo-com-os-outros. E não me importo mesmo, mas me importo comigo e com aqueles que são “eu”. E fazer parte do mundo é o mesmo que fazer parte de si, porque, por mais desconsertado que ele esteja, ainda vivemos nele. E não somos sem estarmos. Apenas creia, estou bem. Com tudo e contudo. Somos humanos, nos fazemos aos poucos. Somos no escuro. Apenas me escuta e me segue. Conto contigo, mas não conta comigo. Sou terço de muitas contas, contas até perdidas, arrisco dizer. Talvez um dia, quando tudo estiver mais claro a gente possa contar e cantar juntos. Segue em paz, que eu procuro a minha. A gente se vê. De uma forma ou de outra.

(02/02/13)