terça-feira, 24 de maio de 2011

Mais dois dos antigos :)

Menos (ou mais) um - I

Um tiro. Silêncio. Uma expressão de dor. Silêncio. Um rio de sangue a correr pela rua. A nascente: um ser humano, praticamente um projeto de um. A foz: o esgoto. É sempre assim, é o destino deles, de todos eles. Meninos e meninas passam livremente, cortando o rio sem se importarem com os peixes. “Ah, ele que sofra”. Já era tarde. Deitado, jogado, parecia feliz, apesar da fome, do calor, da dor, do descaso. Porque ele havia entendido, finalmente. O homem é realmente um mistério e é só através da última gota de sangue que se vê realmente. Ele ria. Ria de nossas caras. Tinha se tornado além.

(15/03/10)

Menos (ou mais) um - II
O sol queimando sua pele, suas têmporas em pura dor, como se flechas atravessassem seu cérebro. Ah, o cérebro, era o culpado de tudo. Por que tinha de trabalhar tanto? Seria tão melhor passar o dia vagando, usando o cérebro pra pensar sem motivos, sem prazos de entrega. Pensar suavemente e mais nada. Não precisava ganhar tanto dinheiro. Se não fosse esse maldito dinheiro, não precisaria usar o cérebro tão ferozmente. Um mendigo estendendo a mão em sua direção. Pensou em dar dinheiro. Mas não: ficar o dia todo com essa dor de cabeça pra dar seu dinheiro a um sujeito que só sabe fazer uma carinha tristonha e estender a mão? Não. Queria esbaldar. Curar essa dor com outra do dia seguinte. E lá mesmo se esbaldou. Extravasou. Saiu à rua no meio da noite e deitou. Deitou no asfalto, com um belo pneu passeando sobre seus cabelos molhados de vermelho e uma gosma a vazar do seu crânio. Enfim, estava livre da dor.
(16/03/10)

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