terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Prece

Que seja sentido: os sentidos e o imaginável. Que seja livre o sentir e que estejamos prontos a ele, ou não. Que nos acerte em cheio, no alvo, certeiro e que o impacto seja suficiente pra se fazer sentir. Que sejamos pegos de surpresa, mesmo quando não. Por mais doloroso, que não seja esquecido: que deixe cicatriz, marcas daquelas vivas, que doem, que são sentidas e se fazem lembrar dia após dia. Que nos salve do infortúnio de, um dia, nos tomarem os dias. Que venha o dia com suas promessas e que vá a noite com as nossas. Que vivam as noites e seus sonhos, e os dias com suas ilusões. Não permita ao feito ser desfeito e ao dito, desdito. Sejam pronunciadas as verdades e as mentiras e marcadas pela dor que trazem, cada uma a sua. Que seja sentida a vida e tudo mais que for possível, além do vivo. Que seja livre.

Escrito em 22/09/2014. Transcrito modificado em 24/02/2015.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Confissões de um leitor nº2

Confissões de um leitor nº2 – Sobre Caio Fernando Abreu

Caio Fernando Abreu é um daqueles a quem só se pode amar ou odiar.
Não recordo o momento exato em que fui apresentado à sua obra, mas lembro bem de vários episódios em que ela se fez presente. Ele tem esse poder de marcar as pessoas com as suas palavras, mesmo que já passados tantos anos. Pelo menos a mim há esse efeito.
Lembro bem de ter lido, visto, ouvido Caio por muito tempo e era sempre um espanto. É assombroso quando encontramos um desconhecido que nos conhece tão bem. Mesmo sem ter vivido ou sentido o que se lê ou escreve, há sempre uma espécie de outro "eu" que sobrevive em nós e que de tempos em tempos se faz notar. Uma espécie de ser totalmente diferente, mas às vezes apenas o nosso puro e simples ser. A verdade é que esse elemento desconhecido costuma saltar e gritar quando Caio fala no silêncio do papel lido. Nem sempre é por conhecimento de causa, mas ele consegue se despir de forma tão íntima em palavras e nos mostra tanto, que é quase impossível não se identificar com essa nudez.
Antes de Caio, houve Clarice. Para mim e para ele. Vimos Clarice se desnudar de suas cobertas e de si mesma em tanta coisa escrita e dita. É rara tamanha coragem. Clarice, com sua arte de ser completamente muitas e ela mesma, contagia de repente tanta gente. Caio, acredito, foi um desses.
São muitas coisas que me vêm à cabeça agora. Mas uma em particular, que ouvi da boca de desconhecido que falava as palavras de Caio para uma plateia de assustados. Assustados e admirados com as profundezas do que era dito. Era simples e complexo. Mas não importava, porque era acima de tudo, sincero e genuíno. Era um conto, uma prosa poética, como só Caio sabe fazer. Chamava-se “Para uma avenca partindo” e, como a figura que era representada no texto, essas linhas ocuparam e se instalaram em minha mente por dias. Já se passaram alguns anos e elas me incomodam (de uma forma agradável) até hoje.

(23/02/15)

Segue o conto de CFA supracitado. Vale a pena cada linha.

"Para uma avenca partindo" - Caio Fernando Abreu


“Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.”

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A arte da fuga

Eu diria que evitar é a maior especialidade da espécie humana. Eu, por exemplo, pus a caneta à mão com a intenção de falar sobre algo muito íntimo, mas rapidamente mudei de ideia e já queria discorrer sobre algo polêmico. Agora, vejam: já estou sendo redundante e metalinguístico.
Evitamos, acima de tudo, qualquer tipo de sofrimento. É vital, instintivo. Qualquer ameaça de dor nos amedronta, mesmo que não estejamos plenamente conscientes disso. Situações desconfortáveis, constrangedoras, que necessitem de mínimo esforço ou doação: evita-se. Evitamos a exposição. Mesmo os mais extrovertidos (eu diria que principalmente estes). A possibilidade de parecermos vulneráveis é aterrorizante: portanto, nos escondemos.
O mais curioso, no entanto, é que evitamos inclusive a felicidade.
E aí passamos horas, dias, meses, anos tentando entender o porquê de tanto receio, por que chegamos ao passo de criar os obstáculos que transpõem a nossa própria jornada. O medo, e a angústia, o arrependimento do não feito. Tudo ali presente e que contribui de forma silenciosamente gritante pra toda essa confusão. Ficamos presos nas nossas mentes.
Não conseguimos perceber que os prêmios, as metas, estão sempre atrás de muitos muros que precisam ser quebrados, muitas portas e janelas que precisam ser abertas; passos a serem dados; muitos silêncios que hão de ser desfeitos e outras tantas palavras que precisam ser contidas. Em meio à corrida, é preciso despir-se de muitas cobertas. É preciso se expor e tornar-se vulnerável ao que nos for apresentado. É bem provável que faça-se presente na boca o gosto da dor, que se conheça frente a frente diversos tipos de sofrimento. Há sempre um preço a pagar.
É mister se permitir, por vezes, esquecer dos outros. Outras, é mais prudente esquecer de si e doar.
Está tudo à nossa frente. São vários receios que se cruzam e conhecemos bem. Mas não percebemos que tanta fuga, essas que cremos piamente nos fortalecer, nos impede, na verdade, de viver verdadeiramente. E nos enfraquece por dentro. Tornamo-nos instáveis.
Andamos incansavelmente em busca de um final que imaginamos e, ao nos deparar com as pedras, mudamos o rumo. Prosseguimos no erro. E chegamos a lugar nenhum, embora nem sempre esteja isso claro.
Devemos ser mais vitais e evitar menos.


(22/02/15)

sábado, 1 de novembro de 2014

Interrogações de um vivente

Uma visita a uma instituição de longa permanência para idosos na cidade de Juazeiro do Norte - CE, como atividade da disciplina de Gerontologia, reacendeu questões existencialistas que já havia me feito anteriormente. Versar sobre o tempo e a vida e o que nos espera à frente é algo difícil, principalmente pela incerteza que já vem atrelada por conceito. Esse texto vem de um evento chave, mas que traz algo também de bagagem.

Interrogações de um vivente

Rodeado por muitos - uns tão jovens, outros nem tantos, uns com espírito de quem vive a tenra idade - estive a pensar no que o tempo nos reserva. De repente, ouço: “percebi que tenho mais passado do que futuro”.  Aquilo insistindo em me perturbar, como martelo incansável. As muitas indagações que me fiz e cujas respostas não pude dar ainda perduram no celeiro mental. Fiz-me imaginar a sensação do ter vivido anos incontáveis, atravessado gerações e não se dar conta do quanto foi perdido, ou deixado de ganhar, de ter colecionado calos que a vida nos dá, observando se foi satisfatória a colheita. Será, essa sensação, similar a esta com que venho convivendo? Questiono inclusive a legitimidade desse sentimento. Explico-me: Estar próximo da linha de partida, na maratona vital, faz-nos crer que o futuro é algo longínquo e que os planos podem ser postergados com segurança. Pelo menos à maioria. Porém, a vida é algo que nos apresenta as mais variadas situações, usualmente sem aviso prévio. Que a vida é uma caixinha de surpresas, já ouvimos muito – e não poderíamos nos deparar com maior verdade. E, assim sendo, será correto esse comum pensar de que aos jovens o tempo é mais generoso e as adversidades da vida, menos tangíveis? Indo além: há mesmo permissividade a esse ócio vital, em que o que não foi feito um dia será? Os feitos, mal feitos ou perfeitos, parecem às vezes algo que nos será entregue pelo tempo, pela vida. Só posso julgar como grande equívoco: os feitos, como a palavra dá a entender, resultam de uma ação. Minha inquietação resulta da sensação de, embora com pouca história a contar, o semeado não me parece suficiente, o tempo não me parece relativamente generoso e a vida, esta, me parece nada previsível. Tento diariamente aprender a lição de não perder tempo com o que não o vale, exaurir-me no que posso me sentir feliz e não no que são incertos os resultados. Entram em conflito o sentimento pueril das aventuras, os riscos, as apostas, aproveitar ao máximo tudo que se pode ser oferecido, contra o peso da senilidade espiritual, se me permitem assim chamar esse medo das incertezas e aversão à inutilidade.
Estar no meio da travessia é mais do que ansiar pela chegada: é sentir saudade dos sorrisos deixados pra trás, lembrar dos passos já dados, arrepender-se dos erros no trajeto. É ainda querer aproveitar ao máximo toda a paisagem que se apresenta nesse caminho.
O tempo nos transporta do que fomos ao que seremos e parece-me, na verdade, que isso acontece continuamente e que, apesar das aparências, não difere em tratamento aos muitos passageiros. A travessia se dá sempre e o nosso plantio nunca cessa. A colheita não tem data marcada. É preciso regar sempre, escolher as melhores sementes. Mas vale lembrar que o erro é possível e não é imperdoável. Arriscar faz parte desse trabalho: no terreno, no local, nos frutos. Lembrar devemos: o plantio nunca cessa, a caminhada é contínua. As paradas servem para contemplar o meio, mas com a perspectiva do que está por vir. Se os frutos serão bonitos, se ao final haverá uma triunfante linha de chegada, não sabemos. É esse mistério que nos impulsiona.


(01/11/2014)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

No meio do caminho tinha um Rosa

Confissões do leitor: “Grande Sertão: Veredas” de João Guimarães Rosa

No meio do caminho tinha um Rosa.

“Mire veja”: são inúmeras as veredas que surgem nas 752 páginas desta obra. O sertão: tão familiar, tão estranho. O sertanejo: nós todos, cada um, reconhecível.
"O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível". E não é mesmo, Guima. Esse livro me espantou de cara: pela expectativa, pelas primeiras palavras, não tão entendível de cara. Mas assim como é a vida: vai clareando aos poucos e, quando vê: está tudo enfim descoberto. "Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia".
Foram anos de expectativa: à primeira vez que parei para ouvir sobre Guimarães, sua obra (em especial, essa), já há muito havia me aventurado no vasto mundo da literatura. Mas nunca em tão densa coisa. Ensino médio, aula de literatura. Eveline, professora da disciplina, no meio do contar de toda a vida e obra deste homem que brincamos de chamar Mestre Guima, diz: Guimarães é, pra muita gente: ame ou odeie. Parafraseando no que a memória permite. Susto já principiou daí. Contos: foram a forma com que ela nos apresentou a ele. Não falo pela maioria: mas efeito pra lá de bom isso me ocorreu. “A terceira margem do rio” já gravada na parede da nossa memória pra sempre desde aquelas aulas, nunca esquecemos. Quis logo mais. Porém, não perseverei, fui adiando... Klyvia, uma amiga dentro desse mesmo contexto, tempos depois me recomendou seu livro de contos “Primeiras estórias” e, depois de ler, aí quis muito mais! Com muita curiosidade fui caminhando. Depois de ler o grande “Grande Sertão: Veredas” a tal amiga só faltou morrer de amores e queria que eu também padecesse do mesmo “mal”. Curiosidade, vontade corroendo. Enfim, (tempo passando), adquiri. Não li logo. Havia uma fila. Em 2012 foi que primeiro li as primeiras páginas. Faculdade no auge, provas e mais. A leitura não fluía como esperado. Pronto eu não estava. Parei a contragosto.
Em 2014, agora, é que recomecei. E terminei. Leitura assim tão prazerosa há muito tempo não tinha. Confesso: trabalhoso, árduo, desafiador. Mas, acima de tudo, engrandecedor.
Na travessia por essas veredas sertanejas muita coisa aprendi, descobri. Conselho pra vida toda, verdade sobre o tudo: tem de sobra.
O livro se constrói em um cenário: o sertão, sertões, Brasil, o mundo. Com um personagem: o homem. Assim genérico. Regional, universal. A linguagem não é portuguesa, nem brasileira: é Rosiana. Poesia salta de palavra em palavra, até em quase-palavra. A alma da gente tá toda ali:
Todos nós merecemos é liberdade do pensar. A dúvida deve sempre é estar plantada. Aprender sempre. "O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!” Homem simples sertanejo muitas vezes sabe disso muito antes de homem letrado. "Sou um homem ignorante. Gosto de ser. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida? Eu quero ver essas águas, a lume de lua..."
E que a alma da gente, o nosso ser per si, é não estático, sempre se construindo: “Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior."
Vivemos como parte do todo. Cada um sendo muito do importante. Da unidade depende todo o total. Fazer sempre o que ao seu alcance estiver, o que sempre puder, assim é que deve ser: “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”. E nesse capinar, ter sempre o reto como exemplo de proceder, sem certeza mas crendo que é isso mesmo. "O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra". Decidir e ir. O que acontece no meio são outras estórias... Às vezes um mau proceder pode acontecer. Aprender com o erro é o que importa.
Ah, sobre o amor: Infinitudes... "Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe”. E mais: “O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.” E as ânsias desse sentimento: "Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo."
Ter sempre o companheiro de viagem, muito importante. Aquele que com apreço se faz presente, sem muito querer. "Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é”.
"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!” Das pedras no meio do caminho esse está cheio. Transpassá-las devemos e aí dar de cara com o mais belo campão de flor. "Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero." Vida é isso, toda uma caixa de surpresa: “pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.” Astúcia deve-se ter sempre pra perceber. “O que meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depoisd’amanhã”.
"Passarinho que se debruça: o voo já está pronto!" Liberdade, ah. "Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer."
Beleza em palavra pra uma vida toda dá pra encontrar por lá, nesse rio de letras. E do sertão? Sertão é em todo canto: o mundo e nós somos ele. “Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: – ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.” Disse ainda mais: "Sertão: é dentro da gente." Sertão, ou seja, o mundo surpreende até não poder mais. Faz parte da gente: “Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo".
Que viver é o eterno aprender, foi o que mais soube: "Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas". E quando achares que nada há mais pra saber, prepara-te pra mais. "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."
"O senhor pense, o senhor ache. O senhor ponha enredo."
"Eu conto; o senhor me ponha ponto”. Tagarelar o resto dos dias todos sobre tudo isso dá facílimo. Vou tentando suspender conversa tão comprida.
Guimarães me abriu universo de sonhar. Com o novo. Pois, se até uma língua foi toda reinventada pra uso de contar história, por que não tudo? Língua nova, mas que todo mundo fala. "Ah, vai vir um tempo, em que não se usa mais matar gente..." Ah, tempo bom vai ser.
Ponto final é em algum momento ponto de partida. A declaração: uma vida pré e uma vida pós esse livro.
"Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito".

(24/08/2014)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Navegar é preciso...

Amigos, resolvi ressuscitar o blog com texto novo e, principalmente, com novo design. O que era o antigo "Advérbio de Modo", hoje se torna o "Desconversos". Novo nome, novo layout, mas o mesmo blog, mesma intenção, mesmo autor, mesmo mundo, vasto mundo.
Mais palavras a vir.  
Sem mais, adeus. Ou melhor, até logo.

A estrada é compartilhada. Mas a viagem, individual.

“O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.”
Guimarães Rosa

De querer tudo entender o homem vive e acaba não vivendo. É de propriedade do ser essa tal curiosidade. Nem sempre possível, embora. O viver de cada um é livre de explicações, é “viver” a máxima que rege o continuar da vida... Creio.
Há quem diga. Que um reto proceder é um assim, ou assado. Pergunto: o que é? É assim como querem ou como deve ser: deve-se saber. Digo logo que nem sei dizer sempre coisas certas e assim agir, vou como vou. Nem sempre de impulso, na verdade, quase nunca. Quase sempre bem pensado, calculado, meticuloso, com receio, mas sem certeza do certo ou bom.
Ter medo? Sempre! Os trilhos são muito tortuosos e de muita tralha no meio do caminho pra querer parecer tão faceiro. Vai com medo, mas vai. Que o caminho é teu e de ninguém mais, por mais que o contrário seja dito. Só ou com quem quiser.
Aos fiscais, nada.
Deve-se (se assim achar): despedir-se de quem quiser; levar o que necessário for - o que não houver utilidade também; dar cada passo no firme piso... Se deixar levar e tomar o tomar o rumo na mão.
Pode ser que haja, através, o desvio obrigatório e tu não entendas. Pode ser que não entenda nunca. Deveras necessário deveria de ser.
De aliteração em aliteração, uma conversa vai ficando comprida demais. Não perde tempo. Toma teu tempo. E tento.
Nós todos companheiros de estrada. Sigo, sem pôr pedra no rumo do outro. 

(12/08/14)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Quando (não) somos mutantes

Ouvi dizer, certa vez, que as pessoas não mudam. No entanto, posso dizer, sem muita certeza: acordo sempre com a sensação de que não sou o mesmo. Me parece que deixo a vida escapar sempre que durmo, aí vem outra vida, outra pessoa, e toma o lugar vazio. Sou sempre outro. Às vezes, nem preciso dormir: sou num minuto e, no outro, já não sou. Sou outro. Será isso uma espécie de maldição? O que precisa ser feito para merecer tamanho fardo? Demanda muito sofrer metamorfose. Gostar de alguém e de repente desgostar completamente é extremamente danoso à sanidade: dito por experiência. Ser morada de mais de um é perturbador: não há paz.
Necessário é, contudo. Ser uma vida toda a vida é demasiado perigoso: não há estradas alternativas. É preciso ser labirinto. Perder os outros é uma espécie de caminho a si. Os vários seres que te habitam, são os que constroem a ponte: de si pra si.
Mas não há sinais nessas veredas: o caminho para a chegada é o mesmo para lugar nenhum. Depende de como o percorre.
Na verdade, entendo quem diz que as pessoas não mudam. Assim como concordo quando dizem que não se pode viver uma vida inteira e ser a mesma pessoa. Somos sempre outros, nos permanecendo os mesmos. Naturalíssimo. Como uma espécie de evolução: mudar é achar-se. E perder-se no meio é tão natural quanto.

(01/04/2014)

domingo, 15 de setembro de 2013

Essa Romaria chamada "Vida".





Somos todos caipiras (Pirapora nossa e de todos que presenciam o milagre da coexistência entre os seres) ao honrarmos o chão onde pisamos, primeiramente e pra-sempre-mente.

O torrão que nos dá. Assim verbo intransitivo mesmo, pois é infinita tanta generosidade.

Cuidemos dele.
Cuidemos de nós. 
Cuidem de nós, Nossas Senhoras todas, que o trem das nossas vidas vai vagando por aí e só aqu'Ele sabe pr'aonde vamos.




(Salve, Elis! Salve, Filipe Catto! Salve, as belas vozes desse nosso Brasil). 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ready for love



I am ready for love,
why are you hiding from me?
I'd quickly give my freedom
to be held in your captivity...
(India.Arie)


Sim, amor só dura em liberdade. Sentenciava o Maluco Beleza. Esse espírito livre e impuro. Amor quer ter passo comprido, voo distante. Quer sair por aí, olhar pra trás e: te ver. Amor quer amarras. Sim: liberdade é preciso e o ciúme também. Senão há rotina, e cansa.
E há quem diga que não há no mundo, ou em outro, sentimento mais paradoxal. Se queres amor, toma esta luta eterna de que o mesmo se faz.
Tu me disseste que estavas pronta: que se permitia se desprender, desapegar completamente. Retruco: não estás. Pois há de sempre ter entrega, qualquer coisa de rendição, sacrifício. Nunca essa coisa doentia de ter. Não nos possuímos, nunca. O que se diz humano deve ser pra sempre do mundo, sem restrições.
Devemos ser pássaros: do mundo, dentro de uma gaiola. Gaiola de porta aberta.  As asas íntegras e o canto límpido.
Lembras da menina que vivia a chamar: “vem cá, Sabiá, vem cá”? Não sabia que a ave era do mundo. Talvez por isso fosse amor puro, inocente.
É preciso estar pronto a entender coisa tão complicada como é essa de que estamos falando. Raramente estamos. E enquanto isso, vamos brincando de ter, de perder, brigar e “amar”, não no seu sentido mais verdadeiro, mas no que conhecemos.
Prepara-te. A vida é um constante brincar de amar.
E somos sempre peça.
“Sabiá responde de lá: Não chore que eu vou voltar”.

(30/08/2013)